sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O sucesso também se aprende: como inverter uma trajetória descendente - versão para pais

Setembro é um mês de janeiro para os milhares de alunos e professores. É um novo ano que começa, uma etapa que inicia, com as suas rotinas, desafios, alegrias e angústias. É sempre um momento de recomeço.


A diferença este ano é que fomos confrontados com os mais recentes resultados do PISA que mostraram uma diminuição assustadora dos resultados dos nossos alunos (para ver o relatório clique AQUI). A tendência de crescimento que se registava nos resultados dos nossos alunos inverteu-se e regressaram a níveis que já não se observavam há cerca de 20 anos. 


Em termos práticos, isto significa que muitos jovens apresentam hoje mais dificuldades na leitura e compreensão da informação do que os seus pares de 2005. E quando a leitura falha, o impacto faz-se sentir em todas as áreas. Na Matemática, por exemplo, não basta saber calcular: é preciso compreender o problema, selecionar a informação relevante e definir uma estratégia de resolução. Desde interpretar uma tabela de horários até gerir um orçamento ou comparar preços num supermercado, a capacidade de compreender informação escrita está na base de inúmeras competências essenciais para a vida. 
Por isso, melhorar os resultados escolares significa também investir no desenvolvimento da leitura, do raciocínio e do pensamento crítico.

Perante estes resultados tão discrepantes dos alunos portugueses em áreas fundamentais como a leitura, a matemática e as ciências, é natural que surjam preocupações. De quem será a culpa? Dos ecrãs? Da Escola? Dos pais? Mas, mais importante do que procurar culpados, estes resultados são um convite à reflexão e à ação. 



Sabemos que o sucesso escolar não depende apenas das capacidades individuais dos alunos. É o resultado de hábitos, atitudes, competências socioemocionais, apoio familiar e práticas educativas consistentes. E a ciência psicológica diz-nos que muitas das capacidades associadas ao sucesso podem ser desenvolvidas e fortalecidas ao longo do tempo. A motivação, a persistência, a autonomia, a organização do estudo, a curiosidade e a confiança para enfrentar dificuldades não são características inatas. São competências que se aprendem, treinam e cultivam diariamente.


Neste início de ano letivo, pais e professores têm uma oportunidade única para ajudar os alunos a construir bases mais sólidas para aprender melhor e alcançar o seu potencial. Porque, tal como a leitura, a matemática ou as ciências, também o sucesso se aprende.

Hoje deixamos aqui algumas dicas para os pais. Num próximo artigo voltaremos com sugestões para os professores!


O que podem fazer os pais?


1. Promover hábitos regulares de leitura

A competência leitora continua a ser a base de toda a aprendizagem. Ler não serve apenas para ter melhores notas a Português; é fundamental para compreender problemas matemáticos, interpretar informação científica e desenvolver pensamento crítico.


Algumas sugestões:

  • Criar momentos diários de leitura em família- desligam-se ecrãs e cada um lê o seu livro, na mesma divisão da casa, durante meia hora ou uma hora. Repita duas a três vezes por semana.
  • Dar o exemplo, mostrando que os adultos também leem. Volte a ter um livro na mesinha de cabeceira. Vá à Biblioteca Municipal fazer o cartão de leitor e requisite livros. É grátis! Encontra lá livros para todos os gostos e para todas as idades.
  • Conversar sobre livros, notícias ou artigos de interesse. Comentar o que acontece no mundo, de forma adequada à idade das crianças, indo para além do que se vê na tv ou nas redes sociais.
  • Limitar a utilização passiva dos ecrãs promovendo atividades que exijam concentração. Cada vez mais estamos conscientes de que os ecrãs não desenvolvem competências importantes nas crianças e adolescentes. Devemos voltar aos puzzles, sopas de letras, montagem de Legos, pintura, desenho, trabalhos manuais diversos, ..., além de estimularem a criatividade, a atenção, a destreza motora, entre outras competências, são excelentes estratégias de regulação emocional.


2. Valorizar o esforço mais do que os resultados

Os alunos que acreditam que a inteligência não é uma competência inata, e que pode desenvolver-se através do trabalho, tendem a persistir mais perante as dificuldades. Em vez de dizer: "Tu és muito inteligente." Experimente: "Fico muito orgulhoso/a por te esforçares para estudar para essa disciplina." Esta pequena mudança ajuda a desenvolver uma mentalidade de crescimento e maior resiliência.


3. Criar rotinas previsíveis

O cérebro aprende melhor quando existe organização e previsibilidade nas rotinas. Deste modo, é importante garantir:

  • Horários regulares de sono.
  • Tempo definido para estudo em casa.
  • Espaço tranquilo para realizar as tarefas escolares.
  • Equilíbrio entre aulas, estudo, lazer e atividade física.


4. Desenvolver a autonomia

Muitos pais, com a melhor das intenções, acabam por resolver problemas que deveriam ser enfrentados pelos filhos. Em vez de apontar as soluções, de imediato, fazer perguntas como:

  • "Como é que isso poderia ser resolvido?"
  • "Precisas de ajuda para resolver isso?"
  • "O que é que precisas que eu faça para te ajudar?"

Deste modo estará a estimular a capacidade de reflexão e a autorregulação da aprendizagem.

5. Cuidar da saúde emocional

Ansiedade, baixa autoestima, perfeccionismo excessivo ou desmotivação podem ter um impacto tão significativo como dificuldades na aprendizagem. Ninguém consegue ter um bom desempenho se estiver com medo de falhar ou com receio de desiludir os pais. É importante escutar sem julgamento e validar emoções. Muitas vezes as crianças só precisam de sentir que alguém as ouviu e percebeu o que sentem. E acima de tudo, ouvirem muitas e muitas vezes que os pais não vão deixar de as amar caso alguma coisa corra mal. No entanto, quando nada disto é suficiente, pode ser importante procurar apoio especializado. O Serviço de Psicologia e Orientação do Agrupamento pode ser uma porta a abrir.


Em suma:

Como recordava o pediatra e psicanalista Donald Winnicott, as crianças não precisam de "pais perfeitos", mas de pais suficientemente bons. Esta ideia continua hoje mais atual do que nunca. Num tempo em que as redes sociais parecem estar constantemente a ditar novas regras sobre como educar, é importante lembrar que o desenvolvimento saudável de uma criança não depende de seguir todas as tendências ou aplicar todas as estratégias da moda. Depende, sobretudo, da presença, da disponibilidade emocional, da coerência e do interesse genuíno pela sua vida quotidiana. Conversar ao jantar, perguntar como correu o dia, ler uma história, ajudar a ultrapassar uma frustração ou celebrar uma pequena conquista são gestos simples que deixam marcas profundas.

Porque é no dia a dia, através de relações seguras e consistentes, que se constroem a confiança, a curiosidade, a autonomia e a vontade de aprender que nos acompanham ao longo da vida.


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