Na nossa publicação anterior demos conta da preocupação que sentimos acerca dos resultados dos alunos portugueses no PISA. É uma queda significativa, para valores próximos dos de há 20 anos, mostrando um retrocesso em competências básicas de leitura, na matemática e na área das ciências nos alunos de 15 anos.

Mas o que é que estes números podem significar dentro de uma sala de aula?
Na prática, podemos estar perante alunos que conseguem adquirir determinados conhecimentos, mas revelam maior dificuldade em compreendê-los em profundidade, relacioná-los, interpretá-los e utilizá-los autonomamente perante situações novas.
Na leitura, por exemplo, o aluno consegue ler um texto, mas tem dificuldade em perceber exatamente o que leu, consegue responder a perguntas diretas, mas tem dificuldades quando precisa de fazer inferências, relacionar informações dispersas, distinguir o essencial do acessório, avaliar criticamente a informação ou justificar uma interpretação. São dificuldades que não se manifestam apenas na disciplina de Português. Podem surgir ao interpretar um documento em História, compreender um problema de Matemática ou retirar informação relevante de um texto em Ciências.
No estudo de 2025 apenas 3% dos alunos atingiram o nível 5 de proficiência e 0,3% o nível 6, nos quais se exige compreender textos extensos e complexos, inferir informação que não está explícita, refletir e avaliar criticamente ou formular hipóteses a partir da informação disponível.
O que podem fazer os professores?
1. Ensinar competências de aprendizagem
Pode ser surpreendente, mas muitos alunos não sabem estudar. É importante ensinar explicitamente estratégias como:
- Tirar apontamentos – muitas vezes, os alunos limitam-se a registar aquilo que o professor lhes diz para escrever. A tarefa de tirar apontamentos de forma autónoma deve ser ensinada e praticada, sobretudo a partir do 2.º ciclo. Por exemplo, pedir aos alunos que, durante uma explicação, registem três ideias importantes, palavras-chave ou uma dúvida, comparando depois os seus apontamentos com os de um colega.
- Organização da informação – organizar o caderno diário, colocar títulos e datas, dividir a informação em secções, distinguir ideias principais de exemplos ou utilizar sublinhados e códigos de cores são estratégias simples que ajudam o aluno a selecionar, hierarquizar e relacionar a informação. Em vez de fornecer sempre esquemas prontos, podemos também ensinar os alunos a construí-los.
- Planeamento de tarefas – perante um trabalho, um problema mais complexo ou um teste, ajudar os alunos a pensar: O que tenho de fazer? Por onde começo? De que materiais ou informação preciso? Que etapas devo seguir? Dividir uma tarefa mais complexa em pequenas etapas e construir um plano antes de começar ajuda a desenvolver progressivamente maior autonomia.
- Autoavaliação – saber o que já se sabe e identificar aquilo que ainda é necessário aprender é fundamental. No final de um tema, podem ser utilizadas checklists simples, com itens como "Já consigo...", "Ainda tenho dúvidas em..." ou "Preciso de praticar...". Também se pode pedir ao aluno que indique, antes da correção de uma tarefa, quais as respostas em que teve mais dúvidas.
- Gestão do tempo – muitos alunos têm dificuldade em estimar quanto tempo precisam para realizar uma tarefa. Podemos ajudá-los a desenvolver esta competência pedindo, por exemplo, que calculem previamente o tempo necessário, registem quanto demoraram efetivamente e comparem os dois valores. Nos trabalhos mais longos, estabelecer pequenas metas intermédias ajuda a evitar que tudo fique para o último momento.
- Monitorização durante a tarefa – importa ensinar os alunos a parar e verificar se estão no caminho certo, em vez de realizarem uma tarefa até ao fim sem questionarem o que estão a fazer. Perguntas como "Isto está a fazer sentido?", "Estou a responder ao que foi pedido?" ou "Preciso de mudar de estratégia?" podem, progressivamente, transformar-se em perguntas que o próprio aluno aprende a fazer a si mesmo.
- Pedido de ajuda – ser autónomo não significa fazer tudo sozinho. É importante ensinar os alunos a identificar concretamente a dificuldade e formular um pedido de ajuda. Em vez de "Não percebo nada", incentivar formulações como "Percebi até aqui, mas não sei como passar para o passo seguinte" ou "Não consigo perceber o que esta pergunta me pede".
Aprender a aprender é uma competência essencial para o sucesso escolar.
2. Apostar na compreensão e no pensamento crítico
Num mundo onde a informação está disponível a qualquer momento, memorizar já não é suficiente. Os alunos precisam de aprender a:
- Interpretar textos – ler não é apenas decifrar palavras ou localizar informação. É necessário ensinar os alunos a identificar ideias principais, relacionar informações e fazer inferências. Podemos pedir-lhes que expliquem por palavras suas o que acabaram de ler, atribuam um título a um parágrafo ou distingam a informação essencial da acessória.
- Formular perguntas – habitualmente é o professor quem pergunta e o aluno quem responde. Podemos inverter esta lógica, pedindo aos alunos que, após um texto, uma explicação ou um novo conteúdo, formulem uma pergunta sobre o que aprenderam ou sobre aquilo que gostariam de compreender melhor. Aprender a fazer boas perguntas também é aprender a pensar.
- Avaliar fontes de informação – num contexto de acesso imediato a enormes quantidades de informação, importa ensinar a questionar: Quem publicou? Quando? Com que objetivo? Em que evidências se baseia? A informação é confirmada por outras fontes? Comparar duas páginas, notícias ou respostas diferentes sobre o mesmo tema pode constituir um exercício simples de análise crítica.
- Resolver problemas novos – os alunos precisam de experimentar situações em que não lhes seja dito imediatamente qual o procedimento a utilizar. Depois de aprenderem determinado conteúdo, podemos apresentá-lo num contexto diferente e perguntar: "O que sabemos que nos pode ajudar a resolver isto?" O objetivo é ajudá-los a transferir as aprendizagens e a experimentar estratégias perante situações menos familiares.
- Argumentar e justificar opiniões – não basta dizer "concordo", "discordo" ou"acho que...". É importante habituar os alunos a acrescentar "porque..." e a fundamentar as suas posições com informação, exemplos ou evidências. Perguntas tão simples como "O que te leva a pensar isso?","Que informação sustenta a tua resposta?" ou "Consegues dar um exemplo?" podem ser utilizadas em praticamente todas as disciplinas.
São precisamente estas competências que o PISA procura avaliar.
3. Trabalhar a leitura em todas as disciplinas
A leitura não é apenas responsabilidade dos professores de Português. e em diferentes disciplinas, os professores podem:
- Reservar tempo para ler e interpretar os enunciados.
- Pedir ao aluno que explique o que lhe está a ser solicitado antes de começar uma tarefa.
- Ensinar a identificar palavras-chave, ideias principais e informação secundária.
- Comparar informação proveniente de dois textos ou fontes.
- Trabalhar gráficos, notícias, tabelas, infografias e outros formatos de informação.
- Pedir que uma resposta seja acompanhada da informação ou evidência que a sustenta.
Um problema de Matemática que o aluno "não consegue fazer" pode, por vezes, envolver também uma dificuldade em compreender o problema.
4. Dar menos respostas e fazer mais perguntas
Antes de explicar como se resolve uma tarefa, dê algum tempo aos alunos para pensarem. Perguntas simples podem fazer uma grande diferença:
- O que já sabes?
- O que precisas descobrir?
- Que informação é importante e qual não é?
- Como chegaste a essa conclusão?
- Haverá outra maneira de resolver?
- Como podemos verificar se a resposta faz sentido?
O objetivo é habituar os alunos a raciocinar, explicar e justificar, em vez de procurarem imediatamente a resposta certa.
Antes de explicar como se resolve uma tarefa, dê algum tempo aos alunos para pensarem. Perguntas simples podem fazer uma grande diferença:
- O que já sabes?
- O que precisas descobrir?
- Que informação é importante e qual não é?
- Como chegaste a essa conclusão?
- Haverá outra maneira de resolver?
- Como podemos verificar se a resposta faz sentido?
O objetivo é habituar os alunos a raciocinar, explicar e justificar, em vez de procurarem imediatamente a resposta certa.
5. Usar o erro como material de aprendizagem
Em vez de corrigir imediatamente um erro, transforme-o num pequeno problema para a turma: "Neste exercício há um erro. Conseguem descobrir onde está e explicar porquê?" Podem apresentar-se duas ou três soluções, algumas incorretas, e pedir aos alunos que decidam qual está certa e justifiquem a escolha. Desta forma, a correção deixa de ser apenas "certo/errado" e passa a envolver análise, argumentação e raciocínio.
Em vez de corrigir imediatamente um erro, transforme-o num pequeno problema para a turma: "Neste exercício há um erro. Conseguem descobrir onde está e explicar porquê?" Podem apresentar-se duas ou três soluções, algumas incorretas, e pedir aos alunos que decidam qual está certa e justifiquem a escolha. Desta forma, a correção deixa de ser apenas "certo/errado" e passa a envolver análise, argumentação e raciocínio.
6. Desenvolver autonomia sem retirar apoio demasiado cedo
Se queremos alunos autónomos, precisamos de lhes dar oportunidades para tomar decisões. Podemos começar com bastante orientação e, progressivamente, retirar esse apoio:
Professor demonstra → professor e alunos fazem em conjunto → aluno experimenta com apoio → aluno realiza autonomamente → aluno explica e avalia a estratégia que utilizou.
Uma pergunta simples pode fazer diferença: "O que podes experimentar antes de me dizeres que não consegues?". Não se trata de deixar o aluno sozinho perante a dificuldade, mas de evitar que a resposta do adulto substitua imediatamente o seu esforço de raciocínio.
7. Integrar o bem-estar na aprendizagem
Se queremos alunos autónomos, precisamos de lhes dar oportunidades para tomar decisões. Podemos começar com bastante orientação e, progressivamente, retirar esse apoio:
Professor demonstra → professor e alunos fazem em conjunto → aluno experimenta com apoio → aluno realiza autonomamente → aluno explica e avalia a estratégia que utilizou.
Uma pergunta simples pode fazer diferença: "O que podes experimentar antes de me dizeres que não consegues?". Não se trata de deixar o aluno sozinho perante a dificuldade, mas de evitar que a resposta do adulto substitua imediatamente o seu esforço de raciocínio.
As competências socioemocionais não precisam de estar separadas da aprendizagem. Podem ser trabalhadas enquanto se aprende. A atenção, o autocontrolo, a persistência perante a dificuldade, a capacidade de pedir ajuda, a tolerância ao erro, a cooperação e a gestão emocional estão presentes diariamente numa sala de aula. Podemos, por exemplo:
- Ensinar o aluno a dividir uma tarefa que lhe parece demasiado difícil.
- Normalizar o erro como parte da aprendizagem.
- Dar pequenas pausas para rever objetivos e estratégias.
- Ensinar formas adequadas de pedir ajuda.
- Valorizar a persistência acompanhada de mudança de estratégia.
- Criar atividades de resolução de problemas em pares ou pequenos grupos.
- Ajudar os alunos a reconhecer sinais de ansiedade ou frustração perante tarefas exigentes.
Não se trata de escolher entre bem-estar e exigência académica. Trata-se de criar condições para que os alunos consigam lidar com a exigência e aprender.
Uma responsabilidade de todos
Os resultados do PISA não representam apenas números ou rankings internacionais. São um sinal de que precisamos de reforçar as condições que permitem aos jovens aprender melhor e desenvolver todo o seu potencial. A boa notícia é que a investigação tem sido consistente: alunos que leem regularmente, que possuem hábitos de estudo estruturados, que se sentem apoiados pelos pais e que mantêm relações positivas com os professores apresentam melhores resultados académicos e maior bem-estar.
Mais do que procurar soluções rápidas, o verdadeiro desafio é recuperar aquilo que está na base de qualquer aprendizagem significativa: curiosidade, esforço, relação humana e confiança na capacidade de cada aluno para crescer.
Porque a melhoria dos resultados escolares começa muito antes do momento da avaliação. Começa todos os dias, em casa, na sala de aula e nas pequenas interações que ajudam as crianças e os jovens a acreditar que conseguem aprender.
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